segunda-feira, junho 26, 2006

O QUE É UMA "NEUROSE" E A NECESSIDADE DO PSICOSSANITARISMO

Foi Freud quem "popularizou" o termo "neurose", distinguindo as "vegetoneuroses" (com outro nome, mais infeliz, é verdade) das "psiconeuroses". Entre essas últimas - que acabaram por monopolizar a denominação de "neurose" - são clássicas a neurose fóbica, a histeria e a neurose obsessivo-compulsiva.

O essencial desse tipo de doença psicológica é o que Freud chamou de "defesa":   por essa ou aquela razão, o sujeito tem interditada a expressão verbal (= repressão) de uma experiência emocionalmente relevante e tal experiência passa a ser expressada por meios não verbais (= sintomas psiconeuróticos).

O tratamento dessas afecções psicológicas, naturalmente, corresponde a fazer que o paciente recupere a enunciação verbal interditada, o que elimina a necessidade da expressão não verbal (= sintomática) da experiência.

Simplérrimo, não? Mas se é possível complicar, por que simplificar?  Se tudo ficar claro, podemos acabar sendo forçados a fazer alguma coisa...

Inclusive investir, através de entidades governamentais e não governamentais, no que deliberei compreensivelmente chamar de  PSICOSSANEAMENTO, ou PSICOSSANITARISMO, formando AGENTES DE SAÚDE PSICOLÓGICA, que, mediante ação pedagógica, ensinariam a população a EMPREGAR SUA FALA DE FORMA NÃO REPRESSORA, emprestando inestimável colaboração para a prevenção e tratamento de uma série interminável de sintomas - físicos e psicológicos - que têm origem na neurose. 

A contribuição de Freud não deve ficar restrita ao que ocorre dentro das quatro paredes de um consultório.  Como ele próprio afirmou, a maior missão da Psicanálise é tornar-se uma "Pastoral Leiga". 

A Nova Conversa, é uma tentativa de contribuir para que algo seja feito nessa direção.

sexta-feira, junho 16, 2006

NOSSOS SONHOS

Cumpre diferenciar entre dois tipos de sonhos: aqueles que nos satisfazem pelo simples fato de terem sido ou de estarem sendo sonhados e aqueles que só irão nos satisfazer no dia em que deixarem de ser o que são para se tornarem realidade. Sem fazer essa diferença, é difícil saber como lidar com eles.

sábado, junho 10, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS XI: JÁ NO RASO...

Há cerca de um mês, recebi, via ORKUT, o seguinte imeil, com o título “Corrija se estiver errado”:

“Trabalho com saúde. Faz uns dois anos tive uma experiência bastante desagradável. Tive a sensação de que havia em mim 2 cérebros trabalhando em conjunto: um era o meu eu e o outro era um invasor que passava muito rápido, dando a impressão que queria invadir o meu eu. Isso me desesperou muito, achei q/ ia ficar louca e iniciei uma psicoterapia. Resultado: a psicóloga encaminhou-me a um psiquiatra, que me disse que isso é natural, que temos dois cérebros que trabalham juntos [nota minha: possível referência a nossos dois hemisféricos cerebrais], mas eu não acreditei e ainda não acredito. Esse cérebro, às vezes, ainda volta a invadir,mas com a psicoterapia aprendi a conviver com ele ,embora dificulte a minha vida em todos os sentidos. Assinado: Fulana de Tal.” [Nessa transcrição, para facilitar o entendimento, mas sem alterar o conteúdo, melhorei o estilo e eliminei alguns erros de pontuação e gramática do original]

Não conheço a pessoa que me enviou essa mensagem, nem tenho condição de avaliar se se tratava de um trote – com a possível intenção de testar como eu responderia – ou se, não sendo, estaria destorcida a descrição que fez a missivista do comportamento do psiquiatra que a atendeu. Não me pareceu, contudo, haver nenhum prejuízo em responder da maneira que responderia caso não fosse uma brincadeira e a descrição estivesse correta. Nesse último caso, minha resposta poderia fazer algum bem, caso contrário, não iria fazer mal. Portanto, falei assim:

“Parece que esse psiquiatra que lhe atendeu passou ao largo do que é o seu real problema. Admitamos, para fins de argumentação, que tenhamos dois cérebros e, como disse ele, esses cérebros trabalhem juntos. Pois bem, tenhamos 2, 3, 4, 22, 407 ou 5000 cérebros, você já viu alguma pessoa afirmar que está se sentido “invadida” por um deles, que isso "a deixou desesperada", que "achou que ia ficar louca" ou que tal fato lhe "dificultasse a vida em todos os sentidos"? É óbvio que não! Se você vai ao médico e lhe diz que seus dois pulmões estão doendo, você vê algum cabimento em o médico lhe responder que "isso é natural” e que, realmente, “temos dois pulmões que trabalham em conjunto", dispensando-a em seguida com uma tapinha nas costas? Evidente que não! O problema, nesse caso, não é termos, ou não, dois pulmões. O problema é que eles ESTÃO DOENDO! Por isso, não desista de encontrar alguém que leve a sério sua dor e se disponha a lutar junto com você para vencê-la. Abraço. Assinado: Luís César.”

Continuemos supondo, ainda para fins de debate, que não se tratava de um trote e que o comportamento do profissional em pauta não foi distorcido. Tal suposição não seria absurda. Se vemos, na área da saúde física, ocorrerem operações em que se retira do paciente seu rim saudável, deixando-o com o doente, se vemos outras em que, após suturar o paciente, se deixam instrumentos cirúrgicos dentro dele, por que, na área da saúde mental, inexistiriam despautérios de igual porte? Despautérios da mesma estirpe que, em minha longa vida profissional como terapeuta, tive o desprazer de presenciar ou de ouvir relatados?
Mas o objetivo central deste meu texto é ilustrar como, para não ouvir alguém, à erro de sermos PROFUNDOS DEMAIS, abordada no “DIÁLOGO” anterior, podemos acrescentar outro, o de sermos RASOS DEMAIS.

sexta-feira, junho 02, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS X: NO FUNDO...

A nos inspirarmos em Nélson Rodrigues, podemos construir uma proveitosa classificação dos idiotas. Há-os de dois tipos: (a) o primeiro, de “idiota da objetividade”, foi proposto por aquele teatrólogo e (b) o segundo, de “idiota da subjetividade”, proponho eu. Exemplo do primeiro tipo:

FILHO: — Mãe, estou tão deprimido!
MÃE: — Meu filho, mas você ALMOÇOU DIREITO?

Para o “idiota da objetividade” há SEMPRE – e não é sua referência ao objetivo que o torna idiota, é o SEMPRE! – uma razão concreta – não ter almoçado, não ter dormido direito, estar com uma unha encravada etc. – para justificar nossas crises existenciais.
Passemos ao segundo tipo de idiota. Desse, a melhor ilustração que conheço encontrei em uma piada sobre psicanalistas. Dois deles se cruzam no pátio de uma instituição psiquiátrica:

PRIMEIRO PSICANALISTA: — Olá fulano, bom dia!
SEGUNDO PSICANALISTA: — “Bom dia?!” O que é que você QUER DIZER COM ISSO?

Aqui, a explicação é SEMPRE – e, mais uma vez, o problema não está na natureza da explicação, está no SEMPRE! – de tipo subjetivo – se “dermos mole”, é capaz de ocupar nosso tempo tentando nos tentar convencer que nossa unha encravada é conseqüência da ativação de nosso Complexo de Édipo. Como vemos, a idiotice nos ameaça por todos os lados. Com dizem os ingleses: “There’s no fool-proof rule”. Seja: não há regras à prova de idiotas. Mas há especializações. Cientes disso, cada um pode pôr-se em alerta contra o tipo de idiotice que mais tende a empregar: engenheiros (e homens!) estão mais expostos a se tornarem idiotas da objetividade; psicanalistas (e mulheres!) perigam sê-lo da subjetividade. Como meu problema não é a engenharia, voltemo-nos sobre a área a que me dedico, a Loganálise (uma variação da Psicanálise). Uma das preocupações dessa variação é repassar para o cidadão comum informações preciosas sobre o funcionamento da mente que ainda não foram devidamente absorvidas pelo público em geral. Seria extremamente útil que esse público fosse capaz de detectar quando o psicanalista incorreu no erro a que sua profissão mais lhe incita para que dele se possa defender. O caminho a percorrer é longo, mas, como ensina o Oriente, o início de uma longa caminhada é feito por um passo. Ensaiemo-lo.
O diálogo que segue é real. Ocorreu durante o atendimento psicoterápico de uma paciente que, desde menina, atraia o olhar concupiscente dos homens, tendo, à conta disso, sido por duas vezes vítima de estupro:

MÔNICA: — Estou cansada desse tipo de atração que eu exerço sobre os homens! Cara, eu não agüento mais! É um nojo! Não sei como me proteger disso!
TERAPEUTA: — Mônica, NO FUNDO, você se sente é vaidosa de atrair os homens.

Pronto, o analista não soube se proteger e caiu na esparrela de agir como um idiota da subjetividade, deixando de ouvir a emoção que, naquele momento, sua paciente tinha necessidade de comunicar! A paciente em tela, após aquela “interpretação”, foi tomada pela culpa, afastou-se do convívio social (“Eu me sentia como um caramujo”, disse ela) e terminou por abandonar a terapia. Uma terapia eficaz permite que o paciente experimente vívidamente as emoções que, a cada momento, estão na SUPERFÍCIE de sua consciência. Passada essa experiência, a que estava mais NO FUNDO vem para a superfície, para ser também experimentada. Ninguém VIVE no fundo de si mesmo!

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS IX: O CONCRETO E O FIGURADO

Atendi uma paciente de seus trinta anos que, entre várias queixas, tinha a de sentir câimbras na mão, que estavam se tornando cada vez mais fortes, quando se punha a escrever. Durante a análise, lembrou-se do seguinte episódio, até então de todo esquecido:
Quando Marília – chamemo-la assim – tinha por volta de 4 anos, sua mãe, ao passar pela pela sala, viu-a sentada no chão, rabiscando alegre e abundantemente a agenda de trabalho do pai. A mãe não lhe bateu. Apenas aproximou-se dela, tirou-lhe a agenda das mãos e, profetizou:

MÃE: — Minha filha, seu pai vai te matar!.

Em seguida, voltou para seus afazeres. Marília foi para o seu quarto e agachou-se em um canto. Tinha tomado à letra as palavras da mãe e ali ficou, petrificada, esperando a morte que ocorreria quando seu pai chegasse. Não ocorreu. Continuou esperando no dia seguinte. Não ocorreu. E no dia seguinte e no dia seguinte... Aos poucos deixou de esperar conscientemente o ataque do pai, mas havia-se transformado de uma criança extrovertida e leve em uma criança introvertida e pesada. A partir do resgate dessa memória – e do de outras experiências de medo que enfrentou – suas caimbras começaram a regredir até desaparecerem de todo, juntamente com outros sintomas – mormente de natureza claustrofóbica – que não analisarei aqui porque, hoje, meu objetivo é apenas ilustrar a extrema concretude que a escuta infantil pode atribuir a palavras que nós, adultos, empregamos em um sentido meramente figurado. Saber disso pode nos fazer evitar, em nossas comunicações com as crianças, determinados tipos de comentário. Exemplifico.
Quando ministrei uma série de palestras sobre Loganálise para o corpo docente de um CIEP situado em uma área extremamente conturbada do Rio, onde pais e mães, tratam seus filhos com extrema rudeza e violência, uma professora relatou seguinte diálogo, mantido com um menino que, no terreno baldio que circunda a escola, ela encontrou ajoelhado, ao lado de um cavalo, segurando uma de suas patas dianteiras, tentando fazê-lo com ela rabiscar o chão:

PROFESSORA: — Que é isso que você está fazendo, menino!
JOÃO: — Estou tentando ensinar este cavalo a escrever.
PROFESSORA: — Meu filho, animal não escreve!

Eu sabia que o menino estava enfrentando dificuldades em seu processo de alfabetização e confesso que não consegui escapar, dada a concretude da escuta infantil a que acabamos de nos referir, à não tão mirabolante hipótese de que, no ambiente inóspito em que vivia, frente a suas dificuldades de aprendizagem, aquela criança já teria ouvido algum comentário como “Você é um animal! Nunca vai aprender nada!” e que tentar “alfabetizar” o cavalo era uma tentativa original, não obstante canhestra, de testar se – ou de provar que – “animais” também aprendem a escrever. Essa minha hipótese pode ser uma grande bobagem e servir apenas como mais uma ilustração da aludida concretude. Mas ainda assim, por via das dúvidas, eu não lhe teria dito o que lhe disse a professora...

segunda-feira, maio 01, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS VIII: KÜBLER-ROSS

Elisabeth Kübler-Ross é um nome para não ser esquecido. Formou-se em medicina na Universidade de Zurique em 1957. Transferiu-se para os Estados Unidos no ano seguinte. Especializou-se em Psiquiatria. No hospital em que passou a trabalhar em Nova Iorque, ficou chocada com o tratamento que era dado aos pacientes terminais. Pouco mais do que dez anos depois escreveu um livro – On Death and Dying ( = Sobre a Morte e sobre o Morrer ). E o que dizia ali?
Por primeiro, dizia que os pacientes terminais eram ABANDONADOS pelos médicos. Sua interpretação de por que isso ocorria? A de que médicos odeiam perceber a própria impotência e que, por isso, fugiam dos pacientes que não podiam salvar.
Por segundo? Por segundo, dizia que os pacientes que iam certamente morrer AINDA ESTAVAM VIVOS e era totalmente incabível abandoná-los.
E por terceiro? Por terceiro, sentou-se com eles, para ouvi-los. O que ela ouviu e relatou tornou-se um clássico para quem se importa com isso. Um clássico para se entender o luto.
Luto implica perda. Haverá maior perda do que a da própria vida? E o que vão perder, senão a vida, os pacientes terminais? E o que Kübler-Ross aprendeu e ensinou? Que, frente a iminência de perder a vida, passamos por cinco etapas, das quais quatro, que me parecem as mais relevantes, discutirei aqui: a primeira, negação; a segunda, ódio; a terceira, depressão; a quarta, conciliação.
Segundo a autora – e minha experiência como terapeuta faz-me concordar por completo com ela – defrontados com a possibilidade de perder nossa vida – recebendo, por exemplo, o diagnóstico de sermos portadores do HIV – a maneira menos dolorosa de encarar o terrível impacto produzido por isso implica atravessarmos as seguintes etapas:
Na primeira, negamos, dizendo: “Não, não é verdade! O próximo exame mostrará que houve algum engano!”
Na segunda, nos enfurecemos, dizendo: “Mas por que eu? Aquele canalha do meu vizinho que trai a mulher, rouba o condomínio e não trabalha não pega HIV e eu sim!”
Na terceira, após esbravejar muito, nos deprimimos, dizendo: “Meu deus, não vou mais poder fazer aquele doutorado em Cambridge que era meu sonho! Nem etc., etc., etc..”
Na última, após negar, odiar e deprimir, nos conciliamos. Como é isso? É como nos ensinou Kübler-Ross. Pensamos: “Bem, já que estou aqui e ainda não morri, por que não leio aquele livro que sempre quis ler?” E passamos a aproveitar todos os prazeres que ainda podemos aproveitar.
Imagino que pouquíssimos de meus leitores sejam pacientes terminais. Então por que Kübler-Ross? Porque a clínica psicoterápica demonstra que o padrão que ela descobriu trabalhando com esses pacientes se aplica a TODA E QUALQUER PERDA. Você perdeu uma caneta? Então, provavelmente, primeiro vai não acreditar que perdeu, depois vai ficar enfurecido com isso, depois ficar triste, depois... Bem, se tiver atravessado todo esse processo, acho que vai comprar outra.
Agora se você impedir que tal processo ocorra, em vez de comprar outra caneta, vai ficar chorando o resto da vida pela que perdeu. Ou, então, fazer o papel idiota de dizer que sempre odiou canetas...
[1] A ser postado no saite www.vyaestelar.com.br

quarta-feira, abril 26, 2006

PSICANÁLISE E FARMÁCIA

A Psicanálise, no futuro, será substituída por medicamentos? Se o for, certamente serão também as escolas. Pois ambas, tanto as escolas quanto a Psicanálise, lidam com INFORMAÇÃO. Entraremos, um dia, em uma farmácia e pediremos pílulas que nos ensinem a falar francês e outras que nos livrem de nossas especiais fobias? Em tal caso, iríamos assim nos dirigir assim aos farmacêuticos: "Por favor, o senhor tem um curso de Direito em pílulas? Quanto custa? E o de Engenharia? E o curso que ensina a não ter alergia a sogras? É mais caro?" Fantástico, não? Infelizmente, por enquanto, os medicamentos só podem REDUZIR O NÍVEL com que nos assomam certas emoções, INDEPENDENTEMENTE DO ESTÍMULO QUE AS DESENCADEIA. Não são capazes, por exemplo, de reduzir meu nível de angústia frente a CAMISAS VERMELHAS, a cor, por "coincidência", da camisa da pessoa que me estuprou. Por outro lado, são perfeitamente capazes de REDUZIR SIGNIFICATIVAMENTE MINHA ANSIEDADE frente a QUALQUER ESTÍMULO, inclusive o de estar sendo estuprado por alguém com camisa verde!
A Psicanálise lida com a adequação ou não dos DESENCADEANTES de determinadas reações emocionais; os medicamentos, com essas reações emocionais DE PER SI, independentemente do que as desencadeia.
Será mesmo que os medicamentos chegarão ao ponto de cumprir a função que hoje a Psicanálise se propõe a cumprir? Quem viver, verá.

quinta-feira, abril 06, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS VII: LUTO

Faz pouco tempo, fui procurado em minha clínica por uma senhora de 82 anos, com quem entabulei o seguinte diálogo:

SENHORA: — Doutor, soube de algumas coisas que o senhor tem falado nas palestras que deu na UNIRIO e quis vir aqui lhe fazer uma pergunta.
EU: — Pois não, faça.
SENHORA: — Não. Antes quero relatar algumas coisas.
EU: — À vontade.
SENHORA: — Doutor, quando eu tinha sete anos de idade, morreu uma pessoa de minha família. Os parentes vestiram-se de preto e as demais pessoas mantiveram uma distância respeitosa dos que estavam de luto.
EU: — Sim.
SENHORA: — Depois, quando fiz dezoito, morreu outra. Percebi que poucos se vestiram de preto. A maioria dos homens, por exemplo, colocou apenas uma tarja preta na lapela de seus ternos. Mais uma dúzia de anos, e morreu outra. Aí, nem tarja na lapela. Pois bem, eu casei aos dezessete anos. Meu marido foi o único homem de minha vida e eu fui extremamente feliz com ele, que faleceu faz quatro meses. Um mês depois, nosso único filho se suicidou. E as pessoas estão me pressionando para que eu não fique triste, não chore, me distraia e “fique bem”. Agora eu posso fazer a pergunta.
EU: — Qual é a pergunta?
SENHORA: — É a seguinte: o que houve com as pessoas? Eu estou maluca ou TODO MUNDO FICOU IDIOTA?
EU: — Não, minha senhora, a senhora não está maluca, TODO MUNDO FICOU IDIOTA.
SENHORA: — Ah, eu já desconfiava. Só queria confirmar. Obrigado, doutor.
E a velhinha, que, por tudo que me relatou, havia vivido uma vida feliz e saudável, nunca mais voltou a meu consultório... E, no que diz respeito à própria saúde, ela tinha razão: só podendo sentir completamente a dor de nossas perdas podemos seguir inteiros nossa caminhada. Voltarei sobre isso.

terça-feira, março 14, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS VI: SISTEMA NERVOSO

Tive uma empregada – chamemo-la aqui de Regina – que, embora de todo iletrada, tinha lá suas vocações filosóficas. Uma vez, entrei na cozinha e ela, com uma batata semidescascada na mão, estava estática, olhar perdido no infinito. Ao perceber que eu havia entrado, iniciou o seguinte diálogo.

REGINA (recuperada do transe): — Doutor, todas as pessoas tem sistema nervoso?.
EU: — Sim, Regina, todas as pessoas.
REGINA: — E por que ninguém tem SISTEMA CALMO?
EU (tentando recuperar-me do impacto da pergunta): — Não sei, minha filha. Mas você tem razão. Seria bem melhor que as pessoas tivessem um sistema CALMO!

A que vem aqui esse diálogo? Vem a propósito do fato de que freqüentemente me perguntam o que é saúde mental. Essa pergunta pode ser respondida em vários níveis, uns mais sofisticados do que outro. Comecemos por um nível relativamente sofisticado e, em seguida, voltamos à Regina. Nesse nível relativamente sofisticado, eu falaria assim:

SAÚDE MENTAL (HUMANA) = capacidade de, mediante a interação harmônica de intenções passíveis de serem verbalmente representadas, orientar o próprio comportamento de forma a, dentro das limitações impostas pelo meio ambiente, obter o máximo possível de prazer e de funcionalidade.

Mas façamos a coisa mais accessível:

SAÚDE MENTAL = ter suficiente jogo de cintura para unir o útil ao agradável.

Mas ainda não chegamos à Regina. Tentemos fazê-lo. Comecemos assim: temperatura é uma coisa, termômetro – ou seja, medidor de temperatura – é outra. Saúde mental é uma coisa, indicadores de saúde mental são outras. Há QUATRO grandes indicadores de saúde mental, sobre os quais ainda falaremos, mas um deles, certamente, é a SERENIDADE. Mas existe um grande engano quando se coloca a FELICIDADE como indicador de saúde mental. Querem ver? Recentemente, no Pinel, dialoguei com uma paciente que me disse como estava feliz com o fato de a filha que tinha nos braços – na realidade, uma boneca – estar tão saudável. Sua filha real tinha morrido, ainda pequena, de leucemia. Alguém é capaz de achar saudável a felicidade dessa moça? Há pessoas que ficam estressadas e ansiosas com uma promoção profissional e outras que são capazes de sofrer intensamente, mas com serenidade, a morte de uma filha. E um dos principais fatores que determina que o processamento – do prazer ou da dor – seja sereno (no léxico da Regina, sistema CALMO) ou ansioso (no idêntico léxico, sistema NERVOSO) é a capacidade de expressarmos verbalmente de forma adequada o prazer e a dor. Esse é o objetivo da Nova Conversa.

domingo, março 12, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS V: MAIONESE

Freud dizia que a Psicanálise não era uma Weltanschauung, leia-se, uma visão do mundo. Essa afirmação precisa ser qualificada. Mal entendida, pode parecer que a Psicanálise não se fundamenta em nenhum tipo de Filosofia. Fundamenta-se, sim. E um dos trabalhos da visão loganalítica da Psicanálise é demonstrar isso. A Psicanálise tem três grandes pilares filosóficos que – além de por Nietzsche – foram claramente enunciados por três grandes filósofos brasileiros, nomeadamente:

Primeiro princípio: “Quem não se comunica, se trumbica” (filósofo brasileiro responsável: José Abelardo Barbosa de Medeiros, vulgo Chacrinha);
Segundo princípio: “Eu é eu e o sinhorr é o sinhorr” (filósofo – note-se, “filósofo”, não “gramático”! – brasileiro responsável: Nerso da Capitinga, distinto colaborador, não da Academia Brasileira de Letras, mas da Escolinha do Professor Raimundo);
Terceiro princípio: “Faish partshi”, normalmente grafado “faz parte” (filósofo brasileiro responsável: o Bambam, do Big Brother, que teve uma menor longevidade do que os anteriores em nosso cenário intelectual; note-se que também era só filósofo, não era gramático).

Pois bem, é a aplicação dos três princípios expostos acima que nos permite construir diálogos saudáveis. Voltaremos várias vezes a esses princípios, exemplificando seu emprego, em diálogos específicos, alguns, como o abaixo, inspirados em imeils que me têm sido enviados por leitores desta coluna.

PEDRO (com Maria, em um supermercado): — Podemos levar maionese, se você quiser.
MARIA: — Não sei se eu quero maionese.
PEDRO: — Mas, se você quiser, podemos levar. Você quer?
MARIA: — Já disse que não sei. Você quer?
PEDRO: — Eu estou perguntando se você quer.
MARIA: — Já disse que não sei! Você quer?
PEDRO: — Eu perguntei se VOCÊ queria maionese.
MARIA: — Eu ouvi perfeitamente você me perguntar sobre se EU queria maionese e lhe respondi que EU NÃO SEI SE QUERO MAIONESE. Então vou acrescentar o seguinte: não estou pensando em maionese, não quero pensar sobre maionese, se VOCÊ quiser levar maionese, VOCÊ leva a maldita maionese e se não quiser deixa a maldita maionese aqui. Aliás, acabei de chegar á conclusão de que EU odeio maionese, de que nunca mais vou comer maionese, nem conversar com pessoas que FALAM SOBRE MAIONESE! Está claro assim?

E Pedro, que não conseguiu assumir que ELE estava querendo levar a maionese, deixou-a no supermercado. A aplicação do princípio “eu é eu e o sinhorr é o sinhorr” teria poupado tal dissabor. Em tempo: “disSABOR”, aqui, significa mais do que FALTA DE MAIONESE.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS IV: O SENHOR PROCÓPIO

Temos falado sobre a QUALIDADE de nossos diálogos, em especial sobre o quanto eles promovem ou não a saúde psicológica. Falemos, hoje, sobre os CONTEXTOS em que esses diálogos ocorrem. Para isso, inventemos uma personagem, o Dr. Procópio, provecto e bem sucedido advogado. Aparelhados dele, inventemos também duas cenas.

CENA I

Dr. Procópio entra esbaforido no elevador do prédio onde há anos trabalha, elevador já quase repleto e preste a partir, no qual se trava o seguinte diálogo:

ASCENSORISTA: — Bom dia, Dr. Procópio! Tudo bem com o senhor?
PROCÓPIO (no repleto elevador): — Não! Nada bem! Descobri, esta manhã, que, há muito tempo, minha mulher está me traindo com o vizinho e que meu filho e todo o prédio em que eu moro sabem disso!

Pareceu bem? Imagino que não. E por quê? Devido ao princípio sustentado pelo seguinte dito popular: “Mal educada é a pessoa a quem se pergunta como ela vai ... E ELA RESPONDE!”

Mas não abandonemos Procópio. Passemos à segunda cena.

CENA II

Nela, o nosso protagonista, nesse mesmo dia, se desloca para uma sessão de análise, com jovem e guapa terapeuta, onde se trava o seguinte diálogo:

TERAPEUTA: — E então, quais são as novidades?
PROCÓPIO (avexado com a possibilidade de que a bela terapeuta, que lhe atrai enquanto mulher, o considere um otário): — Tudo bem! Estou só com um pouco de dor de cabeça... (e mantem-se em silêncio até o fim da sessão).

ANÁLISE

Comparemos as cenas I e II. Tudo errado? Sem dúvida, tudo errado. E por quê? Porque a comunicação eficiente exige, antes de tudo, que saibamos diferençar os CONTEXTOS INTERPESSOAIS em que estamos inseridos. Dr. Procópio não foi capaz de fazer isso: expôs sua vida íntima onde não deveria e encobertou-a onde deveria tê-la exposto. Coisa rara? Nem um pouco! E por quê? Bem, isso irá ficando claro ao longo destes “DIÁLOGOS”.

sábado, janeiro 28, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS III: 'ARE YOU OK?'

PEDRO (em um supermercado, visivelmente irritado, reclamando de uma falha na entrega de mercadorias): — Blá, blá, blá! Blá, blá, blá! Blá, blá, blá! ...
FUNCIONÁRIO DO SUPERMERCADO: — Mas doutor, o senhor NÃO PRECISA ficar chateado assim!
PEDRO: — Mas, SE EU QUISER, eu posso?
FUNCIONÁRIO DO SUPERMERCADO: — Claro! Claro!
PEDRO: — Então, EU QUERO! Blá, blá, blá! Blá, blá, blá! Blá, blá, blá! ...

É fundamental que defendamos o DIREITO INCONDICIONAL de nos aborrecermos. Um dos maiores cânceres culturais da atualidade é o tipo de literatura de auto-ajuda – aliás, o mais difundido dentre eles – que manda você estar sempre OK! Um conhecimento mínimo das descobertas da Psicanálise é capaz de nos fazer entender como a obrigação de estar sempre OK é a origem de um sem-número de sintomas, entre os quais se alinham – ao lado de úlceras, infartos, insônia, depressão, impotência sexual, distúrbios da aprendizagem etc. – os assassinatos em massa do tipo abordado em “Tiros em Columbine”, típicos dos EUA, país do OK!
Assassinatos em massa são um fenômeno que, de fato, merece análise. O perfil desse tipo de crime é absolutamente singular. A maior parte dos crimes é cometida à noite, os assassinatos em massa são cometidos de dia; a maior parte dos crimes são vendetas pessoais ou tem por objetivo o lucro material, os assassinatos em massa são grandemente impessoais e não geram lucro material; a maior parte dos crimes é cometida pela população de baixa renda, a maior parte dos assassinatos em massa é cometida por membros de uma população de renda bem mais alta (a família de um dos dois meninos assassinos de Columbine tinha sete carros em sua garagem!); cometido o crime, a maior parte dos infratores tenta escapar das mãos da justiça, os que perpetram assassinatos em massa ou se entregam (alguns com uma expressão claramente radiante) ou se suicidam! Acrescente-se que parentes, vizinhos e amigos costumam expressar grande espanto quando tomam conhecimento do massacre, pois são unânimes em afirmar: “Mas ele era um menino tão educado, tão bonzinho!”
Pois é! Esse menino “tão educado, tão bonzinho” não se permitia expressar seu aborrecimento em um supermercado! Estava sempre OK! Até que um dia...
Os episódios de assassinato em massa – assim como as já mencionadas úlceras, infartos, distúrbios da sexualidade, da capacidade de aprendizagem etc. – são rebentos perversos da obrigação de estar OK. Acho bom protegermos nosso direito de ficar aborrecidos. Estaremos protegendo não apenas a nós mesmos; estaremos protegendo também aos outros.

domingo, janeiro 15, 2006

LULA E A LITERATURA DE AUTO-AJUDA

(Entrevista dada a Cláudia Jones, da Rádio Roquete-Pinto, em 15/01/06)
O objetivo de meu livro, A Nova Conversa, é primeiro, criticar o que está sendo feito, na cabeça das pessoas, pela atual “literatura de auto-ajuda” e, segundo, mostrar o que deveria estar sendo feito. Mas como fazer isso de maneira simples e clara em uma entrevista de dez minutos? E, quando me pus essa pergunta, o que me veio à mente foram as palavras do prefeito de Águas Lindas, em Goiás, sobre a “Operação Tapa Buraco”, do governo Lula. Disse ele: “Isso é uma palhaçada. Fazem esse serviço porco e lambuzado e, quando der a primeira chuva, vai tudo embora.” Pois é isso que meu livro denuncia: a maioria esmagadora dos atuais livros de auto-ajuda não passa de uma gigantesca “Operação Tapa Buraco” psicológica: um mero recapeamento de otimismo artificial onde seria necessário mexer na estrutura da mente. E um livro pode ajudar ao leitor, por si só, a aperfeiçoar essa estrutura? Minha experiência tem demonstrado que nem a todos – algumas pessoas têm que recorrer à ajuda pessoal de um psicoterapeuta – mas a muitas pessoas, sim. E mesmo “turbinar” o ritmo de pessoas que se encontram em tratamento. Vou tentar ilustrar a natureza da parte “positiva” de meu livro, ou seja, aquela que não apenas critica mais sugere soluções. As queixas mais comuns de pessoas que procuram ajuda psicoterápica são angústia e depressão. Uma pessoa saudável, quando energizada por processos internos ou externos sente prazer e é estimulada a agir. A pessoa com bloqueios psicológicos, ao ser pressionada por essa energia, em vez sentir prazer e ser estimulada à ação, sente primordialmente angústia, e freqüentemente, mecanismos inconscientes seus tentam bloquear essa pressão, gerando uma dePRESSÃO e a alternância entre depressão e angústia a precipita no pior dos mundos. Se a tentativa de fugir à angústia é uma das principais fontes psicológicas da depressão (há, naturalmente, outras fontes, de natureza orgânica), poucas pessoas dão atenção ao fato de que a angústia está associada a um estreitamento da respiração (a palavra “stress” vem do latim “strictu”, seja, “estreito”) e, menos ainda, que bloqueios da fala, que depende nuclearmente do respirar, geram tal estreitamento, gerando angústia etc., etc.. Meu livro mostra técnicas que uma pessoa relativamente saudável, como são a maioria das pessoas, pode empregar para romper esses bloqueios. E isso não é mera Operação Tapa Buraco.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTICOS II: O "É QUE".

CLÁUDIA (dirigindo-se, irritada, ao garçom, que já conhecia há tempos): — Caramba, João, fiquei chateada com o jeito que você jogou a pizza dentro de meu prato e do prato de meu marido!
JOÃO (que ficara desconcertado e inconformado com o conteúdo e o tom do comentário de Cláudia e que, depois de rodar meio sem rumo pelo restaurante, volta à mesa): — Sabem de uma coisa, eu É QUE fiquei magoado com a maneira que a senhora falou comigo. Afinal das contas, eu conheço vocês há muitos anos e sempre servi vocês com o maior carinho!
PEDRO (o marido): — Calma, cara! Sabe de uma coisa: tem mágoa suficiente para todo mundo! Podemos todos ficar magoados: eu, você, ela... Se o gerente também quiser vir aqui curtir uma magoazinha, também pode. Não vai faltar mágoa para ninguém.
JOÃO (algo perplexo e já mais calmo): — Bem..., então, desculpe.
CLÁUDIA (apaziguadora): — Está desculpado. Me desculpe também, se meu jeito de falar lhe magoou.

A expressão “É QUE” tem entradas absolutamente saudáveis e outras bastante doentias em nossa fala cotidiana. Nada há de errado em um diálogo como o seguinte:

FULANO: — Quem vai levar esta quentinha para o Dr. Roberto?
BELTRANO: — Ele É QUE vai!

Em outros momentos, contudo, como no diálogo entre Cláudia, Pedro e João, o “É QUE” comparecia com seu uso doentio. Como reconhecer isso e, coerentemente, desmanchar esse uso, como fez Pedro? O “É QUE” é empregado de maneira doentia quando, numa relação entre pessoas, tenta estabelecer um MONOPÓLIO do direito de expressar uma emoção ou um desejo: só uma pessoa, numa determinada relação interpessoal, É QUE terá o direito de sentir mágoa, raiva, inveja etc.. As outras, não. Sutilmente, existe a tentativa de se estabelecer um reinado: quem ganhar será o rei e poderá falar. Suas palavras serão a verdade, serão “reais” (em português, não diferençamos “royal” de “real”, como fazem os ingleses, ou de “réal”, como fazem os franceses, povos campeões da democracia); os outros, serão “súditos”, ou seja, serão “sub-ditos”, ou seja, SERÁ DITO A ELES O QUE TÊM DIREITO, OU NÃO, DE DIZER. Pois bem, se quisermos que a democracia penetre nossas relações cotidianas, teremos que combater esse uso fascista do “É QUE”. E, para isso, é necessário pôr em prática um princípio da Loganálise: o ser humano não tem o direito incondicional de FAZER, mas tem o direito incondicional de SENTIR e de EXPRESSAR VERBALMENTE o que está sentindo. Quando o “É QUE” tenta operar sob sua forma doentia, ele sempre tenta se estribar na RAZÃO: eu É QUE tenho RAZÃO de me sentir magoado, você não. E segue-se uma discussão estéril, embate micro-político, cujo objetivo é estabelecer quem é rei – cujas palavras são “reais” — e quem é “sub-dito”, quem é “súdito”. Deixemos os debates sobre ter ou não razão para avaliações sobre o direito de FAZER; numa relação democrática, para ter o direito de DESEJAR ou de SENTIR, não é necessário TER RAZÃO. Tenho atendido famílias em que apenas um dos membros tem direito ao uso de certo tipo de expressão verbal. Numa delas, nenhum dos filhos podia fazer qualquer tipo de reclamação porque, com o enfático suporte do pai, a mãe era a única que tinha direito de expressar sofrimento: ela “É QUE” se dedicava, ela “É QUE”´trabalhava, ela “É QUE” etc., etc., etc. Resultado: filhos fazendo anos de terapia para recuperar as palavras que, em sua infância, lhes foi interditado enunciar.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

DIÁLOGOS LOGANALÍTiCOS I: O PROBLEMA DA SOPA

PEDRO: — Meu bem, esta sopa está fria!
CLÁUDIA: — Eu sei que tudo que eu faço é mal feito! Talvez fosse melhor para você que a gente se separasse!
PEDRO: — Eu preferiria que você esquentasse a sopa...

O objetivo de minhas contribuições a este espaço é voltar nossa atenção para detalhes das comunicações interpessoais que, por serem desatendidos, impedem um manejo mais produtivo das relações entre nós, humanos. O formato que, por ora, escolhi para essas contribuições é descrever um pequeno fragmento de diálogo representativo de dificuldades de comunicação freqüentes em nossa cultura e, em seguida, explicitar a natureza dessas dificuldades e sugerir como lidar com elas. Nesse espírito, voltemo-nos sobre o fragmento acima.Um bom diálogo interpessoal – refiro-me, naturalmente, aos que dizem respeito a nossas relações íntimas e cotidianas, não a que tipifica uma aula de Matemática – é MICROSCÓPICO e, não, MACROSCÓPICO. Exemplifico: Afirmação macroscópica: — Você NUNCA me amou!Afirmação microscópica: — ONTEM, NA FESTA DE ANIVERSÁRIO DA ANA, eu me senti rejeitada quando você não me apresentou a seu chefe. O grande problema das afirmações MACROSCÓPICAS é que elas não oferecem condições para nenhum manejo eficaz do problema supostamente em pauta. Na verdade, de maneira geral, uma pessoa que, frente a afirmação de que uma sopa está fria, reage dizendo que “Eu sei que TUDO que eu faço é mal feito!” está consciente ou inconscientemente agindo de maneira desonesta: está tentando desviar a conversa de um universo microscópico em que a sopa está fria – e que pede a óbvia providência de que se a esquente – para um universo macroscópico em que é difícil divisar algo que, de fato, possa ser feito. Essa é uma armadilha freqüente nos diálogos que habitam nosso cotidiano. Naquele – em verdade, fictício – que relatei acima, Pedro consegue não cair nessa armadilha. Percebe a matreira passagem do nível microscópico para o macroscópico e volta para o primeiro. Isso não é comum. O mais das vezes, a partir do “Eu sei que tudo que eu faço é mal feito! Talvez fosse melhor para você que a gente se separasse!”, o que ocorre é o início de uma discussão estéril e infindável, que se repete monotonamente – muita vez diante de cansados filhos – ao longo de anos e anos, para um indiscutível prejuízo de todos. E da sopa.